Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, publisher brasileira de jogos digitais com atuação no mercado de games e tecnologia, vê na identidade cultural um dos ativos mais subestimados dos estúdios do país, e os casos recentes de jogos inspirados em histórias brasileiras ajudam a explicar o porquê.
Na terceira edição do Prêmio Brasil Tá Pra Game, realizada pela Embratur com a Abragames durante a gamescom 2026, em Colônia, os três primeiros colocados são exemplos claros. Lunar Axe, um jogo de mistério e quebra-cabeças ambientado no centro histórico de São Luís, ficou em primeiro lugar. Hell Clock, inspirado na Guerra de Canudos, ficou em segundo. Hit It Back, que se baseia na brincadeira de rua conhecida como taco, completou o pódio, segundo a coluna de Wanderson Trindade, no jornal O Povo.
Como Hell Clock transformou um episódio histórico em jogo?
O jogo, da Rogue Snail, estúdio brasileiro independente e remoto, é um RPG de ação com elementos de roguelike, lançado em 2025 exclusivamente para PC na Steam. Ele se passa num purgatório onde estão presas as almas de Canudos, e o jogador controla Pajeú, que desce a uma masmorra para resgatar a alma de seu antigo mentor, de acordo com o Itatiaia.
A produção contou com consultoria do historiador Swami Abdalla-Santos e com dublagem em português brasileiro. O desenvolvimento começou em 2020, com três pessoas, e chegou a 13 integrantes.
Segundo o Itatiaia, o jogo reúne mais de 130 mil usuários na lista de desejos da Steam e obteve 96% de avaliações positivas na demonstração. O anúncio oficial, em dezembro de 2024, fez as buscas por Canudos e Antônio Conselheiro crescerem 600% no Google Trends. Os dados não indicam vendas, mas mostram curiosidade além do público habitual de games.
Por que identidade cultural ajuda no mercado externo?
A resposta está na diferenciação. O mercado global recebe um volume enorme de lançamentos, e muitos deles se parecem. Um jogo que parte de uma referência própria entrega algo que o jogador estrangeiro não encontra em outro lugar.

Richard Lucas da Silva Miranda avalia que isso favorece especialmente os estúdios brasileiros. Segundo ele, o país tem uma diversidade de histórias, folclores, paisagens e brincadeiras que raramente aparecem em jogos, e o estúdio que as explora com seriedade constrói uma IP difícil de copiar. A relevância do mercado externo é grande: dados da Abragames mostram que 55% da receita dos estúdios brasileiros já vem de fora.
Quais cuidados o estúdio precisa ter?
O primeiro é o respeito ao tema. Quando o jogo trata de um episódio histórico ou de uma cultura específica, a pesquisa e a consultoria com especialistas são parte da qualidade, e não um detalhe. A presença de um historiador na equipe de Hell Clock é um exemplo dessa preocupação.
O segundo é a representatividade na produção. Usar dubladores e vozes da região retratada, como foi feito com atores baianos, reforça a autenticidade e ajuda a evitar caricaturas. Por fim, o terceiro é a clareza: o jogador de outro país precisa entender o contexto, o que exige localização e apresentação cuidadosas.
E o retorno financeiro, está garantido?
Não. Cultura local não substitui boa jogabilidade, e o interesse do público nem sempre se converte em compra. O estúdio ainda precisa de um jogo divertido, estável e bem divulgado, além de um planejamento financeiro que sustente anos de desenvolvimento.
A identidade, como sustenta Richard Lucas da Silva Miranda, oferece uma vantagem inicial: torna-se um motivo para a imprensa e os eventos destacarem o jogo, colocando a produção dentro dos debates.
O que um estúdio pode fazer a partir de hoje?
Um bom começo é listar os temas que a equipe conhece de perto e que o mercado ainda não explorou. Em seguida, vale testar o conceito com conversas, protótipos curtos e páginas de loja antes de comprometer meses de produção.
Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, sintetiza a ideia ao afirmar que o estúdio brasileiro que olha para a própria cultura com rigor profissional não precisa imitar o que já existe, porque tem material próprio para criar uma propriedade intelectual com identidade e alcance internacional.
