A Câmara de Vereadores de Bagé acaba de dar um passo concreto e significativo rumo à ampliação da comunicação institucional com a sociedade: a Agência Nacional de Telecomunicações concedeu a licença de funcionamento para a Rádio Câmara Bagé FM, que operará na frequência 96.1 MHz. Neste artigo, analisa-se o que representa esse avanço para a transparência do Poder Legislativo municipal, quais são os desafios práticos que ainda precisam ser superados antes da entrada no ar e por que iniciativas como essa têm relevância direta para o exercício pleno da cidadania em cidades de médio porte como Bagé.
A concessão da licença pela Anatel era o elo que faltava para que o projeto saísse do campo da outorga, já concedida anteriormente pelo Ministério das Comunicações, e avançasse para a fase operacional. Com a autorização em mãos, a Câmara pode agora organizar as etapas finais da implantação: a estruturação do estúdio e a aquisição dos equipamentos necessários para a operação cotidiana da emissora. Os transmissores já estão instalados na torre que também abriga a antena da TV Câmara Bagé, o que representa uma economia de infraestrutura considerável e indica que o projeto foi planejado com alguma visão de longo prazo.
A coordenação da nova emissora ficará a cargo da jornalista Bruna Netto, servidora do Legislativo, o que sinaliza uma escolha profissional para a condução editorial da rádio. Essa decisão importa mais do que parece: rádios legislativas que carecem de critério jornalístico tendem a se transformar em meros canais de divulgação institucional, sem capacidade de produzir conteúdo que de fato interesse e alcance a população. A presença de um profissional de comunicação à frente da operação é um indicativo positivo de que a intenção vai além da autopromoção institucional.
O rádio, enquanto veículo de comunicação, mantém uma relevância que costuma ser subestimada na era das redes sociais. No Brasil, especialmente em cidades do interior e em regiões com acesso desigual à internet, o rádio FM continua sendo um dos meios mais democráticos de distribuição de informação. Ele chega a domicílios sem banda larga, a trabalhadores rurais, a motoristas, a idosos com dificuldade de acesso a plataformas digitais. Para uma Câmara de Vereadores que deseja ampliar genuinamente seu alcance junto à população, operar uma emissora FM é uma escolha estratégica com potencial real de impacto social.
A iniciativa também se insere em um contexto mais amplo de fortalecimento das rádios e TVs legislativas no Brasil. Câmaras e assembleias que investem em comunicação própria tendem a produzir mais transparência, porque precisam cobrir sessões, votações, projetos de lei e audiências públicas de forma regular. O próprio ato de transmitir ao vivo uma sessão ordinária, por exemplo, cria um nível de responsabilização que não existia antes: vereadores sabem que estão sendo observados, e a população tem acesso ao que de fato acontece no plenário, sem intermediários.
Há, evidentemente, riscos que precisam ser gerenciados com seriedade. Uma emissora legislativa pode se tornar um instrumento de uso político se não houver diretrizes editoriais claras, rotina de produção independente e separação entre o conteúdo jornalístico e a comunicação institucional dos mandatos. A ausência dessas salvaguardas transforma o que poderia ser um serviço público em propaganda partidária financiada com dinheiro do contribuinte. A linha entre informar a população sobre o trabalho legislativo e promover individualmente os vereadores é tênue e exige vigilância permanente.
Por outro lado, quando bem conduzidas, rádios como a Câmara Bagé FM têm condições de cobrir pautas que a mídia comercial muitas vezes não cobre com profundidade suficiente: legislação municipal, audiências públicas sobre temas locais, prestação de contas de mandatos, debates sobre orçamento participativo e políticas públicas de saúde, educação e assistência social. Bagé, com sua extensão territorial e diversidade de demandas, tem material mais do que suficiente para uma programação consistente e de interesse genuíno da comunidade.
Os próximos testes de sinal, previstos para os dias seguintes à concessão da licença, serão o primeiro termômetro técnico da emissora. Mas o teste que realmente importa virá depois: o da credibilidade, construída dia a dia, edição a edição, com informação de qualidade e compromisso com a população bajeense.
Autor: Diego Velázquez
