A chegada dos relatórios do Pacto RS 25 a Bagé, com mais de 200 propostas sistematizadas após meses de debates regionais, coloca em pauta uma questão que vai além da gestão pública estadual: a Campanha Gaúcha está sendo ouvida de forma proporcional ao tamanho de suas necessidades? Neste artigo, a análise se concentra no conteúdo estratégico do que foi discutido, nas demandas levantadas pelo município durante o encontro e no significado prático de iniciativas como essa para regiões historicamente preteridas no planejamento de desenvolvimento do Rio Grande do Sul.
O Que é o Pacto RS 25 e por que Ele Importa
O Pacto RS 25, conduzido pela Assembleia Legislativa por meio do Fórum Democrático, nasceu com uma ambição pouco comum nos processos legislativos tradicionais: construir uma política de desenvolvimento sustentável a partir da escuta ativa da sociedade. Ao longo de cinco encontros presenciais em diferentes regiões do estado, complementados por nove seminários realizados em parceria com os Coredes e uma plataforma digital que reuniu 12 mil participantes, o processo acumulou propostas organizadas em torno de quatro eixos estruturantes, que são a transição energética, a sustentabilidade na indústria e no comércio, a sustentabilidade na agricultura e pecuária, e a superação de desigualdades sociais e regionais.
O resultado concreto desse processo é o Projeto de Lei nº 134/2026, que institui a Política Estadual de Desenvolvimento Sustentável e Resiliência Climática. Transformar debates em legislação é o passo que distingue consultas simbólicas de processos com consequências reais. Nesse sentido, o Pacto RS 25 apresenta um grau de institucionalização que merece ser acompanhado de perto por quem acompanha o desenvolvimento regional gaúcho.
As Demandas de Bagé: Entre a Urgência e a Oportunidade
Durante a apresentação dos relatórios, o prefeito Luiz Fernando Mainardi sintetizou com clareza as prioridades que Bagé coloca na mesa quando o assunto é desenvolvimento sustentável. Três eixos se destacaram em sua fala: a expansão de Parques Tecnológicos na região, a reativação da malha ferroviária e a construção de políticas consistentes de transição energética.
Cada um desses pontos carrega uma camada de urgência específica. A ausência de Parques Tecnológicos na Campanha Gaúcha é um sintoma de uma lacuna histórica de investimento em inovação fora dos grandes centros urbanos gaúchos. Enquanto regiões como a Serra e o Vale do Sinos consolidaram ecossistemas de tecnologia e inovação ao longo de décadas, o sul do estado permanece dependente de atividades econômicas primárias sem a contrapartida de estruturas que gerem emprego qualificado e diversifiquem a base produtiva local.
A questão ferroviária, por sua vez, não é nova nem exclusiva de Bagé. Trata-se de uma demanda histórica que se arrasta sem solução definitiva, mesmo diante de evidências de que a logística ferroviária reduziria custos de transporte para o agronegócio regional e aumentaria a competitividade dos produtos da Campanha. O fato de o prefeito classificá-la como inaceitável que não seja aproveitada revela o nível de frustração acumulado com décadas de promessas não cumpridas nesse campo.
Já a transição energética aparece como a demanda com maior janela de oportunidade. A Campanha Gaúcha reúne condições geográficas e climáticas favoráveis à geração de energia eólica e solar em escala, e a definição de políticas públicas adequadas nesse momento pode posicionar a região como protagonista de um setor em franca expansão no Brasil e no mundo. Perder essa janela por falta de planejamento seria um equívoco com consequências de longo prazo.
Participação, Escala e o Risco do Esquecimento Regional
O Pacto RS 25 merece reconhecimento pela escala de participação que conseguiu mobilizar. Reunir 12 mil cidadãos em uma plataforma digital e realizar encontros presenciais distribuídos pelo território gaúcho é um esforço metodológico significativo. Contudo, a qualidade de um processo participativo não se mede pelo volume de propostas coletadas, mas pelo peso que essas propostas têm nas decisões posteriores.
Regiões como a Campanha historicamente contribuem com pauta, mas recebem menos do que propõem. A chegada dos relatórios a Bagé e o engajamento de lideranças municipais e legislativas no debate são sinais positivos. O que ainda precisa ser demonstrado é de que forma as propostas específicas para o sul do estado vão se traduzir em ações concretas dentro do Projeto de Lei nº 134/2026 e nos orçamentos públicos subsequentes.
A presença do deputado Pepe Vargas em Bagé, com destaque para iniciativas como o Centro de Pesquisa sobre Carvão Mineral e o Geoparque de Caçapava do Sul, indica que há interlocução política em curso. Manter essa interlocução ativa e transformá-la em entregas mensuráveis é o trabalho que começa agora, depois que os relatórios foram entregues e os aplausos se dissiparam.
Autor: Diego Velázquez
