Investir em tecnologia é saída para aumentar produtividade no campo, apontam especialistas no Painel RBS Notícias


Acadêmicos e representantes de sindicatos e empresas discutiram os avanços tecnológicos para uma produção agrícola baseada em dados e que busca eficiência econômica sustentável. Reveja. Elói Zorzetto apresentou Painel RBS Notícias
Reprodução/RBS TV
O investimento em tecnologia e nas máquinas agrícolas para o trabalho no campo são alternativas viáveis e possíveis para aumentar a produtividade da agricultura no Rio Grande do Sul. Esta foi uma das conclusões apontadas no Painel RBS Notícias, transmitido nesta quinta-feira (9) pelo G1, com a mediação do jornalista Elói Zorzetto.
Ao mesmo tempo, os participantes destacaram desafios como as limitações na conectividade à internet para a geração de dados, o uso consciente de insumos para a economia e o menor impacto no meio ambiente. (Veja abaixo a íntegra do Painel RBS Notícias)
Painel RBS Notícias debate os avanços da tecnologia no campo
O Painel RBS Notícias teve a participação de Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq (CSMIA); Rodrigo Bonato, representante do Sindicato da Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Simers); Mateus Bortoluzzi, doutor em agronomia e professor da Universidade de Passo Fundo (UPF); e Marcelo Farias, professor do Departamento de Ciências Agronômicas e Ambientais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
O professor da UFSM, aliás, é um dos defensores de que a tecnologia pode ser a responsável por fazer convergir a rentabilidade e a sustentabilidade.
“Penso que o segredo é este: convergir os pontos para que seja um negócio rentável e sustentável. E a tecnologia tem papel nisso. O momento é muito promissor, as commodities estão valorizadas, mas é necessário o uso consciente”, destaca.
Potencialidades
Já Bonato ressalta diz que o momento atual é da agricultura 4.0, por conta do uso de dados para melhorar a agricultura. Mas mesmo quem já adere a ela enfrenta problemas.
“Estamos produzindo mais na mesma área graças ao uso da tecnologia. O entrave é a conectividade rural, com só 23% das áreas com 3G, 4G ou conexão sem fio. E temos, agora, a 5.0, com inteligência artificial, visão computacional e aprendizado das máquinas”, relata.
Estevão avalia que o momento econômico é bom, principalmente porque, segundo ele, o agricultor está investindo em tecnologia. Os ganhos, assim, vêm de forma econômica, agronômica, em gestão, no âmbito pessoal e no meio ambiente.
“Devemos fechar com crescimento de 38% acima do ano passado, sendo que no ano passado já havia ganho de 17%. Com isso, o agricultor aproveita para fazer a troca de maquinário. O setor aumentou em mais 25% o número de empregos diretos. Estamos tão grandes quanto o agronegócio brasileiro”, exalta.
Bortoluzzi enfatiza que, nos últimos 20 anos, foi possível ver a chegada de máquinas autônomas, inteligentes e, com isso, redução de perdas.
“Era aceitável, antes, perder dois sacos de grãos por hectare. Hoje, é aceitável perder coisa de 300 gramas. O agricultor pode avaliar quanto precisa de velocidade da máquina, quanto aceita perder e consumo de combustível”, explica.
Produção de soja é o carro-chefe do agronegócio gaúcho
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O desempenho do maquinário
O doutor pela UPF também acredita que o cenário é “muito positivo para o agro” e que o produtor, de maneira geral, está capitalizado e precisa aproveitar o momento.
“Momentos como esse são os certos para investir em melhorias na infraestrutura e no aprimoramento da sua rotina produtiva. E as máquinas permitem isso”, observa Bortoluzzi.
Já Bonato fala em três pilares sobre a importância do uso de novas tecnologias para o campo: benefício econômico, inclusão social e rastreabilidade.
“O uso de tecnologia permite o uso otimizado de recursos, o que traz menor custo para o agricultor. Principalmente com o uso da internet que, além de gerar dados que permitem trabalhar de forma eficiente, mantém o trabalhador no campo, principalmente os mais jovens”, relata.
Para Estevão, a evolução na área é constante, o que demonstra o potencial do agronegócio brasileiro.
“Já avançamos muito e o potencial de produtividade está longe de ser alcançado. A produção das propriedades, em geral, aumentou em cerca de cinco vezes nos últimos anos com o uso de maquinário”, diz.
Por fim, todos concordam que, com o uso otimizado de insumos, também é menor o consumo de combustível, gastos com defensivos agrícolas e o custo.
Formação e valorização do trabalhador
Apesar do agronegócio estar em avanço por conta de os produtores estarem capitalizados, Bortoluzzi conta que isso não quer dizer que não precisem de incentivo.
“As máquinas estão aí, mas não chegaram ao momento de tomar decisões. É necessária a capacitação dos profissionais para operar as máquinas e entender os dados que estão sendo gerados. É importante formar profissionais”, afirma.
Para Estevão, os pequenos produtores são aqueles que enfrentam mais dificuldades e que precisam de maiores incentivos.
“O grande dá um jeito, mas o pequeno é o mais prejudicado”, sublinha.
O mesmo vale para financiamentos e programas de auxílio por parte do governo.
“Em se tratando de Pronaf, pode acontecer de o agricultor pequeno ficar sete meses sem financiamento. Se o custo de capital aumentar muito, teremos um problema, ainda mais se a rentabilidade for baixa”, acredita Bonato.
Fato é que, eles contam, há uma espécie de “migração reversa” ocorrendo: mão de obra especializada voltando para o campo. Há, segundo os especialistas, interesse de universidades e empresas na capacitação de produtores rurais para que estejam melhor preparados.
Eles apontam que, da parte dos agricultores, se percebe interesse por conhecimento — e a internet no campo tem ajudado na acessibilidade.
Meio ambiente
Entre as questões de sustentabilidade, Bortoluzzi apresentou estudos científicos que têm verificado maior concentração de CO2 na atmosfera e aumento de temperatura. Ele explica que, para o produtor, isso deve levar a uma queda na produtividade.
“Para as culturas, se há um aumento de temperatura, há redução do ciclo das plantas. A maioria responde à temperatura. Se esse ciclo aumenta, diminui a produtividade”, conta.
Seguindo a linha de raciocínio do colega universitário, Farias explica que um estudo que participou pôde quantificar essas perdas sem o uso da tecnologia. Ele entende que a diminuição na emissão de poluentes passa pelo desenvolvimento de motoristas mais eficientes, que consumam menos combustíveis.
“Mas não só isso. A instrução é necessária. É preciso educar o agricultor, o operador de máquina, para saber otimizar esses recursos. Só em combustíveis, é possível obter uma redução de até 30% só em relação à forma de condução de um trator”, explica.
Estevão afirma que o desenvolvimento de tecnologias para o campo melhora o meio ambiente.
“Jogando menos defensivos no campo, poluindo menos, tendo máquinas que usam menos diesel, inteligentes, operadores podendo trabalhar com mais conforto, o que leva a melhor produtividade e maior ganho financeiro”, enumera.
O entendimento geral é de que a agricultura é importante para a saúde alimentar do planeta. As práticas passaram por uma agricultura de subsistência, baseada em insumos, para uma baseada em processos e calcada em dados. E isso passa pelo uso de máquinas.
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