Luto na música gaúcha: morre aos 69 anos a cantora nativista Berenice Azambuja

Um dos grandes nomes da música tradicionalista gaúcha, a cantora, acordeonista e compositora Berenice Azambuja morreu aos 69 anos, na noite de quinta-feira (3), vítima de parada cardíaca. Ela sofria de câncer no pâncreas e estava internada havia 16 dias no Hospital São Vicente Paulo, em Passo Fundo (Região Norte do Estado).

Familiares, amigos e fãs prestaram as últimas homenagens em uma cerimônia que começou na madrugada desta sexta-feira no cemitério de Vila Lângaro, a 40 quilômetros de Passo Fundo, mesmo local do sepultamento, realizado às 17h. Berenice deixou um filho, Rodrigo, além da produtora Ana, com quem vivia em um sítio na região.

A artista havia sido destaque na imprensa, no início de abril, ao se recuperar da covid. Imagens reproduzidas em emissoras de TV e sites de internet mostravam a paciente sob aplausos quando recebia alta de um hospital em Tapejara, bem-disposta e tocando o seu instrumento, a bordo de uma cadeira-de-rodas.

Trajetória

Nascida em Porto Alegre no dia 21 de março de 1952, Berenice da Conceição Azambuja viveu durante décadas em uma casa na rua Teixeira de Freitas, bairro Santo Antônio (Zona Leste). Ela cresceu no meio artístico (pai violinista e mãe circense), teve as suas primeiras lições de acordeon com com uma tia e ganhou o seu primeiro instrumento aos 7 anos.

O passo seguinte se deu com o ingresso em um conservatório de música, por meio do qual se formou em teoria musical e solfejo com apenas 11 anos, idade em que já se apresentava em programas de rádio e TV. Com 12 anos se formou em acordeon e continuou se aperfeiçoando no instrumento, até que o aprendizado formal fosse interrompido pelas constantes viagens com grupos de baile.

Aspecto marcante em sua carreira a partir da fase adulta, Berenice passou a se apresentar vestida como o chiripá, traje gaudério mais associado ao figurino masculino. Ela atribuía a escolha ao fato de que o vestido de prenda  (adotado por colegas como Mary Terezinha) dificultava os movimentos com o acordeão.

A mãe confeccionou então para a filha uma espécie de “versão feminina” da indumentária, a parti de uma série de adaptações. Essa configuração, aliás, chegou a ser alvo de críticas entre segmentos mais conservadores do tradicionalismo, mas acabou se tornando uma marca-registrada da artista e amplamente difundida no Estado.

Nas eleições municipais de 2016, Berenice Azambuja concorreu a vereadora em Cidreira (Litoral Norte), pelo PSD. Não conseguiu, porém, levar para as urnas a sua popularidade como artista: foram apenas 23 votos, insuficientes para assegurar uma vaga no Legislativo local.

Discografia

A obra de Berenice Azambuja foi registrada em 17 discos entre 1975 e 2008, além de um DVD. O maior sucesso de sua carreira foi “É Disto Que o Velho Gosta”, parceria com Gildo Campos incluída no álbum “Romance de Terra e Pampa” (1980) e que, segundo ela, era inspirada no próprio pai.

A canção ganharia versões de colegas do Rio Grande do Sul como Os Serranos e Gaúcho da Fronteira, além de nomes nacionais do porte de Sérgio Reis em 1985 e Chitãozinho & Chororó (1996). Confira a lista completa de álbuns:

– 1975 – “Fogo de Chão” (com o grupo Os Açorianos);
– 1976 – “Gaúchinha Faceira”;
– 1978 – “É o Sucesso”;
– 1979 – “Canto Para Mil Querências”;
– 1980 – “Romance de Terra e Pampa”;
– 1981 – “Tropeada da Vida”;
– 1983 – “Canto da Terra”;
– 1984 – “Berenice Azambuja Volume 8”;
– 1986 – “Xote Largado”;
– 1989 – “No Jeitinho Brasileiro”;
– 1992 – “Berenice Azambuja”;
– 1995 – “Um Pedaço do Meu Pago”;
– 1998 – “Chimarrão e Água de Côco”;
– 1999 – “Mulher Quartuda”;
– 2003 – “Quem Tá Mandando é a Mulherada”–
– 2008 – “Dançando Num Saravá”.

(Marcello Campos)