‘O que as pessoas acham que é ruim é muito pior’, diz afegã que mora em Porto Alegre sobre regime talibã


Engenheira de suporte Fahra Atbai, de 29 anos, lamenta retomada do Afeganistão pelo regime extremista. Além da família dela, cerca de 20 afegãos vivem no RS, que tem 30 mil imigrantes de todas as etnias. Afegã que mora em Porto Alegre fala sobre situação das mulheres no país de origem
A engenheira de suporte Fahra Atbai, de 29 anos, é uma afegã que mora desde 2002 em Porto Alegre. As fotos da infância em que a família foge do regime talibã para a Índia, em 1996, são as lembranças mais remotas que ela tem do Afeganistão.
“O que as pessoas acham que é ruim é muito pior. Tu não poder sair de casa sem alguém, tu tem que ter o acompanhamento de um homem para sair de casa. Tu não pode mostrar o dedo do teu pé, tu não pode fazer nada. É desumano assim, é terrivel”, exclama.
Na última semana, outras imagens chocantes correram o mundo, desde a retomada do grupo extremista ao poder no país. E Fahra, hoje com 29 anos, lamenta e teme pela liberdade das mulheres que seguem no país onde nasceu.
“Quando eu vi essa imagem da tranqueira, de todo mundo querendo correr para o aeroporto, eu me lembrei dessa foto. E aquilo ali me deu um choque. Pensei: ‘Bah, não acredito que está acontecendo de novo'”, recorda.
VÍDEO: Multidão no aeroporto de Cabul tenta deixar o Afeganistão
Ela mora com o irmão e a mãe na capital gaúcha. Por indicação da ONU, a família Atbai recomeçou a vida no Brasil. O pai Abdul retornou em 2005 e ele e outros parentes continuam no Afeganistão. Mesmo mantendo em contato, a preocupação é diária.
Afegão que mora há 20 anos em Porto Alegre lamenta ofensiva do talibã em Cabul: ‘Fiquei abalado’
Fahra e Omar com os pais ainda no Afeganistão
Arquivo pessoal
LEIA TAMBÉM:
O que é o Talibã
Talibã chega a Cabul
Presidente do Afeganistão deixa o país
Veja FOTOS e VÍDEOS da situação no Afeganistão
O irmão de Fahra, Omar, torce para que, desta vez, o regime seja mais moderado. Contudo, critica a saída dos Estados Unidos.
“Não era o momento. Eu sabia que, se eles saíssem, o talibã ia invadir, e isso aconteceu. Eles invadiram todo o país em três meses. Fiquei triste, abalado, não esperava isso. Mas falei com o meu pai, ele me tranquilizou, falou que está tudo bem, que mudou apenas o governo, e que o talibã não fez nada com ninguém ainda. Ele disse que esse regime talibã é mais moderado, mais suave do que foi entre 1996 e 2001, não são tão radicais como da última vez”, afirma Omar Atbai, de 30 anos.
Mais de 30 mil imigrantes
A estimativa da Prefeitura de Porto Alegre é que a capital abrigue perto de 30 mil imigrantes de todas as etnias. Entre afegãos, porém, são apenas 24 que escolheram a cidade para viver, principalmente a partir de 2002.
“Eu gostaria de fazer um apelo para o governo brasileiro: que aceitasse os afegãos, porque a situação lá está difícil. Hoje me sinto bem, seguro e feliz aqui, e também gostaria que outros se sentissem assim”, acrescenta Omar.
VÍDEO: Entenda o que é o Talibã, grupo extremista que tomou a capital do Afeganistão
Vídeos: Tudo sobre o RS

Artigo anteriorA imagem do desespero em Cabul: “Socorro, o Talibã vai me pegar!”
Próximo artigoTraficante foragido é preso em Torres, no Litoral Norte gaúcho