A fábrica da GM em Gravataí vai suspender a produção de veículos por duas semanas, devido à falta de peças

Por causa da falta de peças, a fábrica norte-americana General Motors (GM) decidiu reduzir o seu ritmo de produção de veículos no Brasil, inclusive na unidade gaúcha, em Gravataí (Região Metropolitana de Porto Alegre), que tem aproximadamente 5 mil trabalhadores. A decisão deve abranger a suspensão das jornadas aos sábados, o corte de horas-extras e a concessão de pelo menos duas semanas de férias coletivas em março.

Ainda não há uma manifestação oficial por parte da empresa no que se refere ao assunto. Mas esse plano de readequação no curto prazo já foi informado ao Sindicato dos Metalúrgicos de Gravataí (Sinmgra), que não descarta a hipótese de prorrogação do afastamento por três semanas. Medidas semelhantes têm sido adotadas na filial de São José dos Campos (SP).

O Complexo Industrial Automotivo de Gravataí (Ciag) é responsável pela produção do automóvel Chevrolete Onyx. Realizada em dois turnos diários, a montagem tem sido afetada por déficits na reposição de itens como pneus, peças de plástico, aço e vidro, que apresentam os mais baixos níveis de estoque na história recente, em um cenário no qual a crise causada pela pandemia de coronavírus chegou a interromper atividades no primeiro semestre de 2020.

Dados do segmento

Números divulgados na sexta-feira pela a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) sobre o desempenho do setor em 2020 indicam um forte impacto da pandemia de coronavírus. Segundo a entidade, houve interrupção no ciclo de três anos consecutivos de recuperação após a crise econômica de 2015-2016.

Dezembro foi o melhor mês de 2020 em vendas de autoveículos, com 243.967 unidades (média diária de 11,6 mil). Mas na comparação com o ano anterior, apenas fevereiro teve média de vendas superior, mesmo com a recuperação de mercado verificada no
segundo semestre.

“A produção de 209.296 unidades em dezembro foi uma boa surpresa, apesar de todos os desafios logísticos, das limitações de insumos e dos protocolos sanitários”, ressalta o presidente da Associação, Luiz Carlos Moraes. “A indústria fez um grande esforço para atender a demanda, trabalhando aos finais de semana e suspendendo parte das férias coletivas, mas entra em 2021 com os estoques mais baixos de sua história, suficientes apenas para 12 dias de vendas.”

No acumulado do ano, os números apresentaram quedas acentuadas, mas não tão drásticas como se projetava no início da pandemia. A grande injeção de recursos emergenciais na economia e a força do agronegócio ajudaram a amenizar as perdas do segundo trimestre, quando boa parte das fábricas e lojas permaneceram fechadas.

As  vendas ao mercado interno fecharam com 2.058.437 unidades, queda de 26,2%, recuando ao patamar de 2016, auge da última crise econômica brasileira. A produção de 2.014.055 autoveículos encolheu 31,6%, deixando a indústria automobilística com uma ociosidade técnica de quase 3 milhões de unidades.

Já as exportações de 324.330 unidades foram as piores desde 2002. Em valores, a receita de US$ 7,4 bilhões foi menos da metade do que se exportou em 2017 (US$ 15,9 bilhões). O segmento de caminhões, impulsionado pelo agronegócio e pelo crescimento do e-commerce, teve as menores perdas entre os veículos, com queda de 11,5% nos licenciamentos em relação a 2019.

Já os veículos comerciais leves caíram 16%, automóveis 28,6% e ônibus 33,4%. As máquinas agrícolas e rodoviárias, por sua vez, venderam 7,3% mais que no ano passado.

A Anfavea também apresentou suas estimativas para o setor neste ano. A entidade prevê aumento de 15% no licenciamento de autoveículos, 9% nas exportações e 25% na produção, índices insuficientes para a retomada a patamares de 2019, pré-pandemia. Para máquinas, a expectativa é de crescimento de 7% nas vendas, 9% nas exportações e 23% na produção.

“Nunca foi tão difícil projetar os resultados de um ano, pois temos uma neblina à nossa frente desde março, quando começou a pandemia”, lamenta Luiz Carlos Moraes, que acrescenta:

“Observamos uma segunda onda de coronavírus em países do Hemisfério Norte, que parece ter chegado também ao Brasil. E sabemos que a imunização pela vacina será um processo demorado, que tomará quase todo o ano, impedindo uma retomada mais rápida da economia. Some-se a isso a pressão de custos, necessidades urgentes de reformas e surpresas desagradáveis como o aumento do ICMS paulista e temos quadro que ainda inspira muita cautela.”

(Marcello Campos)