Oportunismo político e o marketing da lacração

A polêmica sobre o programa de trainees para 20 jovens negros criados pelo Magazine Luiza, além de produzir um eletrizante debate social nacional e dividir e posicionar opiniões e instituições acerca da ocorrência ou não do racismo reverso, permite um olhar mais aprofundado para o subterrâneo aonde vem sendo construída a tentativa de uma nova fisionomia política do país.

A ação civil pública protocolada contra a medida pelo Defensor Público da União Jovino Bento Júnior ajuda a compreender o caldo ideológico onde se formam ações e reações, que, sob o manto da autonomia e independência funcional, trazem no seu bojo um componente político que faz uso das instituições para alcance de objetivos políticos de determinados grupos de interesses e de filiação.

Leia nesta edição: os planos do presidente para o Supremo. E mais: as profundas transformações provocadas no cotidiano pela pandemiaVEJA/VEJA

Como um Defensor Público mediano não pode ser desavisado e muito menos mal informado, só uma intencionalidade inconfessável pode fundamentar e relacionar de modo hostil, pejorativo e desqualificado, o programa de trainees para negros e as demais ações dessa natureza realizadas por dezenas de empresas como uma expressão tão somente com objetivo de realizar Marketing da Lacração.

Segundo sua teorização, os objetivos de empresas que agem como o Magazine Luiza são na verdade construírem uma peça de marketing, totalmente divorciado dos objetivos empresárias de satisfazer o cliente e produzir lucros sem nenhum interesse sincero de promover as necessárias transformações sociais. Tudo isso, no limite, levaria a substituição da política e dos partidos políticos pelas empresas que, sem regramento legal e com recursos financeiros internacionais livres e sem controle, em disparidade de armas, disputaria a prerrogativa da definição e produção de decisões políticas e de políticas públicas, alterando o equilíbrio dos poderes e colocando em risco a democracia. Logo, por pressuposto, o estado democrático de direito.

Ao raciocínio paranoico, e esgrimindo seus cincos anos de atuação na justiça do trabalho como fundamento do conhecimento sensível dos seus argumentos, surpreende que o Defensor não tenha tido conhecimento que a própria CLT reconhece e ampara a discriminação positiva para corrigir desigualdades sociais e estimular políticas afirmativas com esse fim e para dessa natureza. Desconhece, também, que o Ministério Público Federal do Trabalho, titular da ação penal trabalhista, não só afirma como recomenda e exigem posturas dessa natureza das empresas. Da mesma forma, não lhe atinou que todo o corpo de executivos do Magazine Luiza é de homens brancos. Esse tipo de lacração não o incomodou antes e nem sequer foi registrado na sua peça confusa, incoerente e contraditória.

Há 12 anos, o Banco Bradesco em parceria com a Universidade Zumbi dos Palmares, de maneira histórica e pioneira iniciou o programa de contratação específica de jovens negros para seu programa de estágios. A cada seis meses 50 jovens são selecionados regularmente, iniciando uma longa jornada de 02 anos de aprimoramento da aprendizagem e preparação para o futuro profissional. Ao final , ou são efetivados ou devolvidos para o mercado vitaminados e prontinhos para iniciar qualquer carreira.

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Todo início dos cursos é precedido de uma singela cerimônia com a presença do Presidente e ou membros do Conselho de Administração e com os vários dirigentes que integram o grupo de mentores e responsáveis pelo acompanhamento e desenvolvimento profissional de cada um dos jovens. Das centenas de jovens formados, centenas foram efetivadas e passaram a integrar o quadro regular da corporação, muitos deles tendo progredido para cargos de chefia e liderança executiva. Seguramente, o Banco Bradesco é o maior empregador de jovens negros estagiários do país. O Banco Bradesco patrocina o Coral de Jovens Negros da Zumbi dos Palmares, a 07 anos, assina e adota uma das Salas da instituição, há 12 anos e patrocina o Troféu Raça Negra, que há 17 anos, na Sala São Paulo, premia personalidades da causa negra.

No dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, que comemora o aniversário do líder negro e herói nacional Zumbi dos Palmares, dirigentes e funcionários participam da Corrida da Consciência, na cidade de São Paulo, que eles patrocinam. Na Semana da Consciência Negra os alunos das Escolas da Fundação Bradesco participam dos concursos, debates literários, educacionais e culturais de fortalecimento e valorização da história e participação do negro na construção do país.

Em todas as edições do Troféu Raça Negra, o Presidente do Bradesco comparece com demais executivos e familiares, tendo sido emocionante e inspirador o dia em que Lazaro Brandão discursou no púlpito o orgulho que ele o banco tinha de realizar e participar de todas essas ações que deviam ser entendidas como o profundo compromisso com a igualização de oportunidades e construção de uma democracia sólida e que abrigasse a todos.

Que tipo de lacração poderia ser encontrado numa condução exemplar dessa natureza que cria oportunidades, igualiza os acessos, incluí, aprimora e gera oportunidades de emprego e renda. Que, contribui, intensamente, para enfrentamento e superação dos desafios da vida pessoal e profissional?

O defensor acrescenta como justificativa adicional ao seu argumento, o fato de que em países com desemprego baixo como os Estados Unidos a medida seria admissível, mais no Brasil, onde o desemprego é alto, a medida e insustentável. Como se vê raciocínio confuso, incoerente simplesmente desarrazoado. Se o desemprego é o justificador da medida que ele combate, quanto mais desemprego mais justificada se faz a medida. Logo não existe justificativa jurídica de agir e nem substancia do pedido de agir. Na letra da lei, má-fé.

Outrossim, se a Constituição Federal, as Leis e todas as instâncias e setores da justiça recepcionaram e validaram legalmente ações afirmativas exclusivas para negros, sendo elas as primeiras a implementá-las. Se, o Banco Bradesco e dezenas de outras empresas praticam essas medidas há mais de uma dezena de anos. E, se, 95% dos quadros executivos das maiorias da empresa no país são compostos por brancos – no Magazine Luiza é 100% -, de que lacração estamos falando? Qual é de fato a lacração que devemos combater? De que lado afinal está e que lacração move o nobre Defensor?

Uma pista significativa pode ser encontrada nas fontes que ele citou para formação do seu convencimento, elas ajudam a explicar muito mais seu surto seletivo e oportunista de defesa dos vulneráveis indefesos. O Presidente da Fundação Cultural Palmares, e o contrabando do conceito de marketing de lacração das escolas Olavistas.

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